quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Escola e a Família - Daniel Sampaio

(...)
O meu argumento é outro: não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família? Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho, que passassem, por exemplo, pelo encurtamento da hora do almoço, de modo a poderem chegar mais cedo, a tempo de estar com os filhos? Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais?
(...)
Por isso entendo que a proposta de alargar o tempo passado na escola não está no caminho certo, porque arriscamos transformá-la num armazém de crianças, com os pais a pensar cada vez mais na sua vida profissional.
(...)
Gostaria, pois, que os pais se unissem para reivindicar mais tempo junto dos filhos depois do seu nascimento, que fizessem pressão nas autarquias para a organização de uma rede eficiente de transportes escolares, ou que sensibilizassem o mundo empresarial para horários com a necessária rentabilidade, mas mais compatíveis com a educação dos filhos e com a vida em família.Aos professores, depois de um ano de grande desgaste emocional, conviria que não aceitassem mais esta "proletarização" do seu desempenho: é que passar filmes para os meninos depois de tantas aulas dadas - como foi sugerido pelos autores da proposta que agora comento - não parece muito gratificante e contribuirá, mais uma vez, para a sua sobrecarga e para a desresponsabilização dos pais.

Daniel Sampaio, Público
Fonte: Terrear

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dia do Pai


O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois… Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar… E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
… menino, meu menino…

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in “Crepusculário”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O texto inimigo


O Fim da Linha

Mário Crespo

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicacado em (1/2/2010) na imprensa.
Nota: Texto encontrado no Instituto Francisco Sá Carneiro
Este é o texto que não foi publicado... O descaramento continua ... Até quando... Será que...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Consequências do Acordo ME/Sindicatos

"João Dias da Silva, líder da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação, destacou o fim da divisão da carreira e a possibilidade de progressão de todos os docentes como os principais pontos positivos. "O nosso objectivo, na quinta-feira, era chegar a um acordo e fazer tudo por isso. Mas tinha que ser um acordo que permitisse aos professores passar para uma situação melhor" (...) o "sim" da FNE aconteceu já a rasar a meia-noite quando, de volta à sala da FNE, Isabel Alçada se "mostrou disponível" para deixar em acta que, "na construção da solução final, se procuraria melhorar as condições de transição do antigo para o novo ECD" (estatuto de carreira docente)."
Consequências do acordo:

- Mais vagas - antes, só 30 por cento dos professores chegavam ao topo da carreira, agora todos poderão chegar.

- Carreira única de 10 escalões - sem categorias hierárquicas, mas com dois estrangulamentos na passagem para o 5.º e para o 7.º escalão: as vagas anuais até 2013 ( inicialmente o ME só fixara estas percentagens para 2010) são respectivamente de 50 e 33 por cento. Em relação ao primeiro documento do Ministério, regista-se nesta último caso uma dilatação de 30 para 33 por cento.

- Bom para Muito Bom em três anos - Os docentes são classificados numa escala de 0 a 10. O "Bom" vai de 6,5 a 7,9. Em três anos, com a compensação acordada, um docente classificado com 6,5 terá uma nota de 8, equivalente a um "Muito Bom", ficando assim garantida a sua passagem de escalão, uma vez que no novo ECD se estabelece que os docentes classificados com esta nota ( ou com Excelente) progridem, independentemente da abertura ou não de vagas.

- Excelente e Muito Bom com progressão automática - a progressão automática ao 5º e 7º escalão dos docentes que obtenham classificações de mérito não incidirá sobre a percentagem de lugares disponível - não retiram lugares aos que só podem progredir por vagas.

- Prova de Ingresso na Carreira - obrigação da realização de uma prova de ingresso na profissão. Ao contrário do que acontecia ma primeira versao, ficou fixado que esta obrigação não abrangerá aqueles que já tenham exercido a docência, como é o caso dos professores contratados.

- Observação de aulas - ficou decidido que o responsável pela avaliação terá que observar aulas dadas pelo avaliado na passagem para o 3º e 5º escalão. Quem se candidatar a classificações de mérito terá também aulas observadas, uma disposição já contida no “simplex” da avaliação que entrou em vigor no ano passado.

- Ciclo de avaliação de dois anos - Os ciclos de avaliação serão de dois em dois anos, tendo na base um relatório de auto-avaliação.
- Objectivos Individuais - A entrega de Objectivos Individuais será voluntária, mas quem se candidatar a classificações de mérito terá que o fazer. A avaliação sera decidida por um juri constituído no âmbito do Conselho Pedagógico e presidido pelo director da escola.

- Concurso de Professores - no próximo ano será aberto novo cocurso para a colocação de professores.
Fonte: Público