domingo, 3 de maio de 2026

O louco de Deus no Fim do Mundo

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«Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.»

Este é o brilhante início de um livro único que nunca pôde ser escrito, pois o Vaticano jamais abriu as suas portas de par em par a um escritor. Mas, além de singular, este é um livro de plenitude, em que o autor consegue transformar uma proposta invulgar numa história magistral: um thriller sobre o maior mistério da história da humanidade.

Com O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas regressa à sua linha mais pessoal, conseguindo relacionar as suas obsessões íntimas com uma das preocupações fundamentais da sociedade de hoje: o papel do espiritual e do transcendente na vida humana, o lugar nela ocupado pela religião e a ânsia de imortalidade.


 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

As Rosas de Barbacena

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Um romance sobre silêncio, memória e responsabilidade – e sobre o que acontece quando lembrar se torna um ato de justiça.

No Hospital Colónia de Barbacena, onde o esquecimento foi política de Estado, Teresinha é internada grávida e sem defesa. Bernardo, um homem comum, recusa aceitar que o silêncio seja destino dos vivos. Separados por grades, papéis e escolhas irreversíveis, constroem uma ligação feita de cuidado, responsabilidade e promessa.

Quando Bernardo parte em busca da filha de Teresinha – levada ainda criança para longe da mãe –, o romance atravessa cidades, países e tempos, revelando como a violência institucional não termina nos muros que a escondem: prolonga-se nos corpos e transforma a memória num registo que não se apaga. Um romance que confronta, comove e permanece muito depois da última página.


 

domingo, 26 de abril de 2026

A Escócia e a IA nas escolas



O que podemos retirar para o contexto português?

Este documento escocês não é, evidentemente, transponível sem adaptação para a realidade portuguesa. Os enquadramentos legais diferem (UK-GDPR vs. RGPD da UE; incorporação da UNCRC vs. o nosso próprio quadro de direitos da criança), assim como as estruturas de governação educativa. Mas há aspetos que merecem reflexão séria:

A clareza dos princípios é exemplar. Cinco guardrails, formuladas de forma direta, que qualquer professor consegue compreender e aplicar. Não são vagas nem excessivamente técnicas.

A centralidade do professor como profissional autónomo perpassa todo o documento. A IA é uma ferramenta; o juízo profissional é insubstituível.

A inclusão dos direitos das crianças como eixo estruturante — e não como mera referência decorativa — dá ao documento uma consistência ética que vai além da questão tecnológica.

A honestidade sobre o que ainda não sabemos é refrescante. O documento assume explicitamente que a evidência sobre o impacto da IA na educação continua a emergir e compromete-se com revisões regulares.

Finalmente, a abordagem colaborativa — envolvendo governo, sindicatos, autoridades locais, universidades e as próprias crianças — oferece um modelo de governação participada que seria desejável replicar.

Fonte: Jorge Borges


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Uma Paixão Simples

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De um lado, uma mulher culta, independente, divorciada e já com filhos adultos.

Do outro, um homem casado, estrangeiro, mais jovem, por quem ela perde completamente a cabeça. E por quem espera, dia após dia.

Se o tema parece trivial, não o é, de todo, o modo como os dois anos que dura esta «paixão simples» são contados: no seu estilo frontal, acutilante, despido de vergonhas e julgamentos, Annie Ernaux desfoca a linha ténue entre ficção e autobiografia e põe na voz da narradora as confidências da história de uma relação que toma conta de tudo, que extasia e rebaixa, fonte da maior felicidade e da mais dolorosa solidão.

Viver algo assim será, talvez, o maior privilégio da existência. Lançado em 1991, Uma Paixão Simples surpreendeu o panorama literário francês, quebrando os estereótipos do romance sentimental pelo seu erotismo e pela sua honestidade. Em 2020, foi adaptado ao cinema por Danielle Arbid.


 

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domingo, 12 de abril de 2026

O Telegrama

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A 1 de Setembro de 1939, Tolek Klings despede-se da mulher, Klara, e do filho de 2 anos, Juliusz, e junta-se ao Exército Polaco para combater o invasor alemão, prometendo voltar em breve. Mas, para um judeu, a vida no exército pouco difere da vida civil: o antissemitismo grassa e Tolek é atormentado implacavelmente.

Quando a Polónia se rende, Tolek vê-se perante um terrível dilema: fugir para se reunir com a família e protegê-la — correndo o risco de ser fuzilado por desertar — ou permanecer no exército.

Incentivado por Klara, Tolek decide ficar no exército e, nos tempos que se seguem, vive as mais incríveis peripécias, fugindo desde a Hungria até ao Médio Oriente.

É quando está na Palestina, com a guerra a decorrer há mais de ano e meio, que lhe chega um telegrama da mulher, que termina anunciando que está em problemas.

Determinado a salvar a família, mas sem nada poder fazer até a guerra acabar, Tolek acompanha o exército em combate no Egito, Líbia e Itália, numa longa viagem de volta a casa para cumprir a promessa feita à mulher.